RÁDIO ROCKZONE

CAVERNA - TEMPLO DO METAL NO RIO DE JANEIRO

Postado por Mick
É com grande prazer que inicio meu “debut” neste importante orgão de divulgação que sempre acompanhei, prestigiei e divulguei. Vida longa ao site ROCK ZONE!!! Espero que vocês curtam a minha modesta contribuição, rs.

Você que é fã de qualquer vertente do METAL, precisa saber que para chegarmos a ter uma cena consolidada no RJ (por mais insuficiente que ela ainda seja) precisamos ter MUITA gratidão a um certo local, que foi o 1º a abrir as portas para as novas bandas do estilo em meados dos anos 80... Aliás, ser um fã de rock pesado nessa época, era um tarefa um tanto quanto heróica! É impossível dimensionar com palavras o preconceito que sofriamos por curtir o nosso som nas alturas, em assumirmos radicalmente o nosso visual (achavam de verdade que tínhamos pacto com o satã!) e fora a difuldade absurda em ter acesso as coisas referentes. Os discos (ainda os "bolachões" de vinil) após o lançamento, levavam uma média de 2 anos para “pintarem” por aqui. Fora desse prazo, só em importadoras. Camisas e acessórios diversos, nós mesmos confeccionávamos artesanalmente.

O divisor de águas em melhorar essa situação foi o 1º ROCK IN RIO em 1985, que a nossa querida rede Globo de TV fez mostrar (claramente com grande carga de estranhamento misturado a preconceito) que existia um público muito mais numeroso do que qualquer um já havia imaginado para esse tipo de som, os chamados “metaleiros” (como a própria emissora rotulou).

Para um suburbano como eu, as coisas ainda eram mais difíceis... Viva as fitinhas cassetes que gravávamos dos discos de nossos amigos mais “abastados” da zona sul, que vinham de suas viagens de férias repletos de novidades. Sim pessoas, enquanto hoje a maioria esmagadora dos “camisas pretas” vem do eixo zona norte - baixada fluminense, nessa época o Metal acontecia mesmo era nas áreas nobres da cidade. O programa “Guitarras” na extinta rádio Fluminense, a MALDITA (falarei dela breve, foi revolucionária), também sempre nos salvava com um baú repleto de preciosidades. Fora as revistas METAL e ROLL, as únicas publicações especializadas no gênero na época e que eu orgulhosamente tenho várias devidamente conservadas em meu poder! Não é a toa que acabei me formando em Museologia, rs.

Foi ai que surgiu o CAVERNA 2! Por tudo que falei anteriormente, percebam que foi muito bem pensada a sua localização na rua Lauro Muller (Botafogo), na ASCB (uma associação de servidores públicos) onde hoje é um bingo (fechado) e ao lado do Canecão (também fechado!). Eita rua maldita!!! Lógicamente com todo o “boom” pós ROCK IN RIO, as bandas começaram a se proliferar, gravadoras e selos especializados a surgir e era mais do que necessário um local para os shows, né? Aí vocês me perguntam: CAVERNA 2? E o 1??? Bem, o já falecido Raul começou os trabalhos pelos confins de Nova Iguaçu, mas lógicamente não deu certo. Eu não conheço ninguém que tenha ido, rs. Seu irmão Max, em respeito a sua memória, deu conclusão ao sonho e mandou ver!

Ainda me recordo com exatidão da primeira vez que fui até o CAVERNA (mais ou menos no final de 88). Me montei todo como mandava a tradição da época, com jaquetão de couro, coturno do exército, calça rasgada com as logos das bandas costuradas, spikes e acessórios diversos, cabelo desgrenhado (comprido nunca gostei, nem em mulheres!) e camisa preta do LED ZEPPELIN! Detalhe, sabem que horas começavam os shows??? 15:00!!! Isso mesmo! E mesmo sob um sol infernal, eu e mais uns 300 doidos devidamente no estilo, estávamos em pleno domingo (era o dia que religiosamente rolava) muitoooooooooo amarradões na porta! Teríamos como atração as bandas WAR, TAURUS (ambas do RJ) e WHITCHAMER de BH (as duas últimas já com disco gravado). Todas de Thrash Metal, que era o som em voga no momento. Levou um intervalo bom para que eu fosse finalmente até lá, rolou um “friozinho na barriga” ao chegar e entrar, pois os tempos eram outros gente... De Vila da Penha para Botafogo é um “pouquinho” longe e mamãe, que já implicava com o meu conjunto da obra “metálico”, me embarreirou váriasssssss vezes.

Ao entrar, a surpresa! O lugar era todo pintadinho de azul claro, com jardim, parquinho com gangorra, balanço, etc. Não combinava com que eu esperava de um “templo” do Heavy Metal. Mas quando entrávamos no burac..., quer dizer, no espaço destinado aos shows, aí sim, nos sentíamos no inferno!!! Calor dos diabos, som horroroso, sujo, cheiro de vômito, rodas de pogo e mosh sem espaço nenhum para tal, escroto demais! Mas querem saber??? Todos adoravam! Conhecíamos as novas bandas, fazíamos novas amizades, trocávamos material e automaticamente novos grupos surgiam dessas relações. Bem, quanto as mulheres, eram 50 machos pra uma! Por aí... Não reclamem nunca meninos, a situação melhorou horrores, vocês não imaginam o quanto! Se dependesse do METAL estaria virgem até hoje, rs. Ainda mais não sendo cabeludo e não tocando em banda.

E até meados dos anos 90, fez muita história e foi nossa grande diversão das tardes do domingo. Faustão, quem era? Hahahahahha. O RJ revelou ótimas bandas como DORSAL ATLÂNTICA (dispensa comentários, lançou um dos primeiros discos de Metal do Brasil e encerrou atividades com 8 discos lançados), METALMORPHOSE, AZUL LIMÃO, EXTERMÍNIO, KRIPTA, CAVALAST, METRALION, TUBARÕES VOADORES, CALIBRE 38, etc. Todas com estilos bem díspares, mesmo com todo radicalismo que a tribo exalava na época. Muitas dessas tem dowloads disponibilizados por aí, se não conhecerem, ouçam que vale a pena. Umas voltaram recentemente a atividade, como METALMORPHOSE, AZUL LIMÃO e TAURUS.

Mas não eram só bandas do RJ que se apresentavam lá: VIPER, com o “pop star” André Mattos ainda na adolescência, mas já mandando ver; o mais do que aclamado até os dias de hoje pelos amantes de METAL EXTREMO, SARCÓFAGO (com toda aquela indumentária carregada, acreditem!) ; KORZUS (ainda em atividade, uma das melhores do Brasil); RATOS de PORÃO (da época que o Gordo era mais sujo e agressivo, rs) ; MX (Thrash “porreta” do interior de SP) ; SEXTRHASH (Death de BH, deixou saudades) ; VOLKANA (primeira banda só de mulheres) ; PUS (quando a modelo e escritora SYANG era a guitarrista Simone Death, mas muito linda do mesmo jeito!) ; o mesmo VIPER com Pit Passarel nos vocais, que acreditem, era a banda mais badalada do início dos anos 90, só perdendo para o SEPULTURA em popularidade e tendo gravado disco ao vivo no Japão, etc, etc, etc.

Enfim, MUITAAAAA coisa boa rolou! Toda nossa reverência para esse local pioneiro do HEAVY METAL no RJ. Com o tempo, paralelamente outros locais abriram espaço para shows como teatros, auditórios de escola e o GARAGE, que surgiu exatamente quando o CAVERNA 2 suspendeu as suas atividades. Mas o GARAGE já merece outro capítulo... Hum, quem tiver notícia do Max, o barbudão que fazia as coisas acontecerem na raça, gritem pra gente!!! Quem sabe não conseguimos marcar uma entrevista com ele??? Dedico a ele, por sua perseverância e amor ao ROCK’N’ROLL, este singelo texto. E infelizmente, vídeos da época em estado razoável não foram encontrados e tentei expor aqui algumas fotos de show publicadas na revista METAL, mas a qualidade das mesmas ficou muito ruim, mesmo sendo tratadas. E é bom que desperta curiosidade, procurem por aí que vocês encontram coisas referentes! Até a próxima!

Por Alessandro Iglesias
Comentários
3 Comentários

3 comentários:

Thiê disse...

Grande texto! Me senti no local, vivendo um pouco daquela atmosfera. Não cheguei a ir ao Caverna, mas já ouvi falar muito dele!

Gilson Mangarat disse...

Sobre as bandas que 'frequentavam' o Caverna 2 faltou mencionar o 'Phuneral', uma das primeiras (senão a primeira) banda de Black Metal brasileira - da qual eu fazia parte (vocalista). No mais, está de parabéns pela excelente matéria ! Gilson Mangarat (ex Gilson Bruxo).

mayra Abrantes disse...

Excelente texto!!!!
Era isso mesmo a cena do Metal na época!!!
Acho que tempos como esse não voltam mais.
Uma banda marcante para mim foi a juizforana Sepulcro, Marcelo Gerisson e Paulo faziam um som que até hoje ecoa em meus ouvidos!!!!
Muito foda mesmo